Reflexão: Liturgia do XXIV Domingo do Tempo Comum, Ano C – 15/09/2019

09 de Stembro de 2019

"Reflexão: Liturgia do XXIV Domingo do Tempo Comum, Ano C – 15/09/2019"

Quem ama entende: Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta

Na Liturgia deste Domingo, XXIV do Tempo Comum, veremos, na 1a Leitura (Ex 32, 7-11.13-14), que a intercessão de Moisés obtém a misericórdia de Deus para com o povo infiel: “E o Senhor desistiu do mal que havia ameaçado fazer ao seu povo”. A intercessão de Moisés prefigura a de Cristo, que se fez solidário com os pecadores, ele intercede por nós junto do Pai.

Vemos, neste texto, que a oração é um diálogo em que se descobre a vontade de Deus e se eleva o clamor humano. Vemos, também, que o projeto ideal de vida e libertação se depara com os obstáculos: “povo de cabeça dura”, que facilmente se deixa corromper por ídolos que levam ao fracasso e à morte. Aqui percebemos a perspicácia do líder que não se iguala na hipocrisia, não regride na fé, mas também não fica furioso, mantém-se sereno e com misericórdia, pois compreende que esta é a realidade de um povo que ainda precisará de muita formação para deixar de ser manipulado pelos ídolos e, então, entrar na “terra prometida”. Resta saber quantos desistiram do mal que os absorviam e se acolheram as orientações do líder Moisés.

Na 2ª Leitura (1Tm 1, 12-17), o apóstolo Paulo nos fala de sua vocação e transformação pela graça de Deus. Recorda o seu passado de perseguidor insolente a apóstolo e servidor de confiança, manifesta sua alegria e gratidão pela graça e a misericórdia de Deus. “Vocês já ouviram falar de como eu antes me comportava no judaísmo, de como perseguia com veemência a igreja de Deus e a devastava” (Gl 1, 13). A vida e o exemplo de Paulo deve ser o perfil de todos os cristãos. Deus nos chama não porque merecemos ou somos bons, perfeitos, ou um dia haveremos de sê-lo, mas porque Ele é bom e misericordioso.

No Evangelho (Lc 15, 1-32), Jesus nos conta três parábolas: da ovelha, da moeda e do filho perdido, e nos convida a imitar o gesto do Pai Misericordioso para com os pecadores. As transgressões dos filhos não anulam o amor do Pai. As Parábolas da misericórdia nos revelam um Deus que ama a todos e manifestam a alegria de encontrar o que estava perdido. A alegria é tão grande que é preciso festejar e partilhar com todos. Constatamos um elemento comum que une entre si as três parábolas: da ovelha perdida, da moeda extraviada e do filho pródigo. O que diz o pastor que encontrou a ovelha perdida e a mulher que encontrou sua moeda? “Alegrai-vos comigo!” E o que diz Jesus como conclusão de cada uma das três parábolas? “Haverá mais alegria no céu por um pecador que se converta que por noventa e nove justos que não tenham necessidade de conversão”. Cada pessoa é um tesouro para Deus, o valor de uma vida é infinito, por isso vale a pena gastar-se, ser solidário e amar sem medidas.

O Papa Francisco diz: Nas parábolas dedicadas à misericórdia, Jesus revela a natureza de Deus como a de um Pai que jamais se dá por vencido até que não tenha dissolvido o pecado e superado a rejeição com a compaixão e a misericórdia. Conhecemos estas parábolas, três em particular: a da ovelha perdida e da moeda extraviada, e a do pai e os dois filhos. Nestas parábolas, Deus se apresenta sempre cheio de alegria, sobretudo, quando perdoa. Nelas encontramos o núcleo do Evangelho e da nossa fé, porque a misericórdia se mostra como a força que vence tudo, que enche de amor o coração e que consola com o perdão” (Misericordiae vultus, 9). Se essa é a atitude de Deus, qual deve ser a nossa para com aqueles que se afastaram de Deus e da Comunidade?  Como viver a misericórdia em nossa vida, em nossa família, em nossa realidade?

Não me canso de relatar um fato acontecido com uma jovem em relação a sua família:

"Queridos pais,

Imagino a raiva que têm de mim. Sim, fui muito ingrata com vocês. Larguei os estudos, tornei-me viciada, desapareci. Vim para São Paulo com um amigo e, aqui, passei a viver de pequenos expedientes. Na verdade, afundei-me na lama.

O fato é que, agora, estou na pior. Peguei AIDS. O que temo não é a morte. Ela é inevitável para todos nós. Tenho medo é de ficar sozinha. Preciso de vocês. Mas também sei que os maltratei muito e posso entender que queiram manter distância de mim. Cada um na sua.

É muito cinismo da minha parte vir, agora, pedir socorro. Mas, sei lá, alguma coisa dentro de mim dá forças para que eu escreva esta carta. Nem que seja para saberem que estou no início do fim.

Um dia qualquer, passarei aí em frente de casa, só para dar um último adeus com o olhar. Se por acaso tiverem interesse que eu entre, numa boa, prendam, à goiabeira do jardim, um pano de prato branco ou uma toalha de rosto. Então pode ser que eu crie coragem e dê um alô. Caso contrário, entendo que vocês têm todo o direito de não querer carregar essa mala pesada e sem alça na qual me transformei. Irei em frente, sem bater à porta, esperando em Deus. Que, um dia, a gente se reencontre no outro lado da vida.

Beijos da filha ingrata, mas que ainda guarda, no fundo do coração, com muito amor (Assinado: Clara).

Três semanas depois, antes das cinco horas da manhã, Clara desembarca na rodoviária e toma um ônibus para a Praia do Canto. É quinta-feira, e o vento sul começa a aplacar o calor, encapelando o mar e silvando entre prédios e janelas. Clara desce na esquina e caminha, temerosa, pelo outro lado da rua. Sabe que, a essa hora, seus pais e as duas irmãs costumam estar dormindo.

Ao decifrar a ponta do telhado, seu coração acelera. Olha o portão de ferro esmaltado de preto, as grades em lança que marcam o limite entre a casa e a calçada. Vislumbra o cume da goiabeira. Seus olhos ficam marejados. De repente, uma coisa branca quebra o antigo cenário. Não é uma toalha nem um pano de prato. É um lençol branco, com pequenos furos no meio, tremulando entre a árvore e o muro da garagem.

Em prantos, Clara atravessa a rua e corre para casa" (Texto Base da Campanha da Fraternidade de 2001, nº 59, extraído do romance de Frei Betto: O Vencedor; Ática, 1995).

Boa reflexão e que possamos produzir muitos frutos para o Reino de Deus.


Pe. Leomar Antonio Montagna

Arquidiocese de Maringá