Reflexão: Liturgia do XIV Domingo do Tempo Comum, Ano A – 05/07/2020

30 de Junho de 2020

"Reflexão: Liturgia do XIV Domingo do Tempo Comum, Ano A – 05/07/2020"

O termômetro de como vivemos indica como rezamos. O vertical se projeta no horizontal

Na Liturgia deste Domingo, XIV do Tempo Comum, veremos, na 1a Leitura (Zc 9, 9-10), que o anúncio de um Rei Vitorioso montado num jumentinho tem sua plena realização em Jesus. Sua realeza não está no poderoso armamento, e sim na justiça e na solidariedade com o povo mais fragilizado. O Messias construirá a paz, pois sua autoridade estará a serviço da vida plena: “Eis que vem teu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde... eliminará os instrumentos de guerra”. A partir dessa leitura e diante de nossa realidade, o questionamento é sobre qual é a função da autoridade? Onde está a autoridade ideal? Está dentro do nosso coração. Para ter paz no mundo, temos que desarmar o coração, pois, na guerra, não há vencedores, todos perdem, é a derrota da humanidade.

Na 2ª Leitura (Rm 8, 9.11-13), o apóstolo Paulo afirma que a vida segundo a carne gera morte e que a vida segundo o Espírito gera vida.

No Evangelho (Mt 11, 25-30), temos uma das páginas mais intensas e profundas da vida de Jesus, compõe-se de três partes: uma oração, “Eu te louvo, Pai...”, uma declaração sobre ele mesmo, “Tudo me foi dado por meu Pai...” e um convite, “Vinde a mim todos os que estais cansados e fatigados...”.

Quanto às palavras de Jesus elogiando os ‘pequeninos’: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos”, o apóstolo Paulo faz um comentário, na primeira carta aos Coríntios, que retrata muito bem quem são esses ‘pequeninos’ que acolhem o Reino anunciado por Jesus: “De fato, irmãos, reparai em vós mesmos, os chamados: não há entre vós muitos sábios de sabedoria humana, nem muitos poderosos, nem muitos de família nobre. Mas o que para o mundo é loucura, Deus o escolheu para envergonhar os sábios, e o que para o mundo é fraqueza, Deus o escolheu para envergonhar o que é forte. Deus escolheu o que no mundo não tem nome nem prestígio, aquilo que é nada, para mostrar a nulidade dos que são alguma coisa. Assim, ninguém poderá gloriar-se diante de Deus” (1Cor 1, 26-29).

Em outro texto, ele continua dizendo que é em nossa fraqueza que Deus revela sua força.

“Todavia, esse tesouro nós o levamos em vasos de barro, para que todos reconheçam que esse incomparável poder pertence a Deus e não é propriedade nossa. Somos atribulados por todos os lados, mas não desanimamos; somos postos em extrema dificuldade, mas não somos vencidos por nenhum obstáculo; somos perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados... É por isso que não perdemos a coragem. Pelo contrário: embora o nosso físico vá se desfazendo, o nosso homem interior vai se renovando a cada dia. Pois a nossa tribulação momentânea é leve, em relação ao peso extraordinário da glória eterna que nos prepara. Não procuramos as coisas visíveis, mas as invisíveis; porque as coisas visíveis duram apenas um momento, enquanto as invisíveis duram para sempre” (2Cor 4,7-9 e 6,8-10).

Podem-se constatar algumas dificuldades dos primeiros cristãos num trecho da carta a Diogneto, um cristão dos anos 190 que escreve a um dos Notáveis de Alexandria, no Egito:

“Os cristãos não se distinguem dos outros homens, nem pelo país onde moram, nem pela língua, nem pela roupa. Eles não habitam cidades próprias, nem se servem de qualquer dialeto extraordinário. Seu modo de vida não tem nada de especial. Não é na imaginação ou nas visões de espírito agitado que sua doutrina tem sua origem; eles não se fazem, como tantos outros, campeões de uma doutrina humana. Eles estão tanto nas cidades gregas como nas cidades não gregas, segundo o destino de cada um; eles seguem os costumes locais quanto à roupa, comida e maneira de viver, manifestando, porém, em tudo, a admirável natureza de sua vida, a qual todos acham extraordinária.

Eles residem cada um em sua pátria, mas como estrangeiros. Eles cumprem todos os seus deveres de cidadãos, mas suportam tudo como estrangeiros. Qualquer terra estranha é pátria para eles, qualquer pátria, terra estranha. Casam-se e procriam, mas nunca lançam fora o que geraram. Têm a mesa em comum, não o leito. Existindo na carne, não vivem segundo a carne. Na terra vivem, participando da cidadania do céu. Obedecem às leis, mas as ultrapassam em sua vida. Amam a todos, sendo por todos perseguidos. Desconhecidos, são assim mesmo condenados. Mas, quando entregues à morte, são vivificados. Na pobreza, enriquecem a muitos. Desprovidos de tudo, sobram-lhes os bens. São desprezados, mas, no meio das desonras, sentem-se glorificados. Difamados, mas justos; ultrajados, mas benditos. Injuriados, prestam honra. Fazendo o bem, são punidos como malfeitores; castigados, rejubilam-se como ganhando nova vida. Os judeus hostilizam-nos como alienígenas, os gregos os perseguem, mas nenhum de seus inimigos pode dizer a causa de seu ódio” (Diogneto, V).

Para concluir esta reflexão, poderíamos afirmar que Jesus vive como reza: agradece, é misericordioso, humilde etc. O termômetro de como vivemos, indica como rezamos. O vertical se projeta no horizontal. A religião para Jesus é a vivência da caridade, é o ajudar as pessoas (habilidades externas mais modo de viver).

A religião para os fariseus (sábios e entendidos) é o apego às vírgulas, às leis, fechados ao Reino. No nascimento de Jesus, ficaram alarmados, juntamente com a corte de Herodes.

‘Pequeninos’, no Evangelho, indica, também, os de brilhante inteligência, mas que são simples, naturais, não complicados, humildes, que colocam o conhecimento a serviço da pessoa e não de esquemas espúrios.

Algumas questões: Que valores a sociedade prega? Quem nós elogiamos e quem depreciamos? Nossa forma de organização social prima por quem: pelo mercado ou pela pessoa humana?

Boa reflexão e que possamos produzir muitos frutos para o Reino de Deus.


Pe. Leomar Antonio Montagna

Arquidiocese de Maringá – PR