Crianças na Igreja: A cada choro, a alegria e a certeza de uma comunidade que se refaz


Data da Postagem: 14 de Junho de 2018

“Deixai vir a mim os pequeninos” (Mc 10,14). Jesus parece ficar bem desapontado com a postura dos seus discípulos que estão impedindo as crianças de se aproximarem Dele. Os discípulos estão preocupados com o bem

Dá para perceber que a ideia de que esses anjinhos só atrapalham e incomodam não nasceu ontem, talvez essa seja a justificativa da expressão: “as crianças são o futuro da nossa Igreja/comunidade/sociedade”, e rebatendo essa concepção, digo, elas são o presente.

Não podemos jogar para o futuro o papel, a presença e a importância, que elas já têm e podem desempenhar.

Vem-me na memória uma das mais bonitas experiências que vivenciei no meu processo formativo. Em 2009 fui designado a realizar meus trabalhos pastorais numa comunidade marcada pelo desânimo e pela falta de entusiasmo. Nos sábados eu presidia a celebração da Palavra, e a cada celebração parecia repetir o mesmo “capítulo da novela”, “não temos coral; nem leitores; tampouco temos quem venha para a celebração”. Quantas vezes tive que presidir, cantar, proclamar as leituras e o salmo. Tentei vários caminhos, visitas de casa em casa, fiz convites, e nada surtiu efeito.

“Deixai vir a mim os pequeninos”, logo, fui buscar ajuda na catequese, fiz um desafio às crianças da comunidade. Abri espaço para que elas pudessem assumir o papel delas na comunidade. Com ajuda dos catequistas formamos um coral, formamos os leitores e delegamos as demais funções da liturgia, os pais e a comunidade se achegaram para verem a meninada atuar. Tão logo, através desses anjos conseguimos reavivar a comunidade.

A presença das crianças na vida de comunidade é tão importante, que os pais que não vão à missa, se vão e não levam o filho, seja porque esse dá trabalho ou vai atrapalhar a missa tirando a atenção do povo e do padre, está tirando da criança o direito dela de ser Igreja e, ao mesmo tempo, privando a Igreja de se renovar, pois a cada choro, a alegria e a certeza de uma comunidade que se refaz.

Uma comunidade que se fecha à participação da ‘piazada’ porque não tolera o seu choro ou quem sabe as corridas nos corredores da igreja, mas fecha os olhos para as conversas que os adultos fazem antes e durante a missa, tem que repensar seus valores, afinal de contas a criança chora quando tem fome, dor, medo, etc., sempre ou quase sempre esse choro ou irritação vêm acompanhados de uma necessidade vital. Mas qual a necessidade de comentar o capítulo da novela ou dos últimos acontecimentos da rua de casa, se isso pode ficar para depois?

“As crianças nunca são muito boas para escutar os mais velhos, mas elas nunca falham em imitá-los” (James Baldwin).

Que a meninada possa colher em nós boas posturas e bons valores. Se sonhamos com uma Igreja alicerçada na eclesiologia do Papa Francisco, uma Igreja aberta para acolher, precisamos começar abrigando as nossa ‘piazada’. “O choro da criança é a voz de Deus, é a melhor oração”, adverte o Papa Francisco.


Padre Alécio Carini é pároco da paróquia São Silvestre em Maringá-PR.