Uma ecologia integral


Data da Postagem: 25 de Fevereiro de 2016

Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, principalmente às crianças? Este interrogativo é o centro da esperada Encíclica do papa Francisco chamada “Louvado seja” –  invocação de São Francisco noCântico das criaturas”.

Esta pergunta inicial, não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma fragmentáda e isso conduz a interrogar-se sobre o sentido da existência e sobre os valores que estão na base da vida social: “Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra? Se não pulsa nelas esta pergunta de fundo”, diz o Pontífice, “não creio que as nossas preocupações ecológicas possam surtir efeitos importantes”.

O papa Francisco exorta a todos e cada um, indivíduos, famílias, coletividades locais, nações e comunidade internacional, a uma “conversão ecológica”, segundo a expressão de São João Paulo II, isto é, “mudar de rumo”, assumindo a beleza e a responsabilidade de um compromisso para o “cuidado da casa comum”.

Nota-se uma crescente sensibilidade relativamente ao meio ambiente e ao cuidado da natureza, e cresce uma sincera e sentida preocupação pelo que está acontecendo ao nosso planeta, legitimando um olhar de esperança que permeia toda a Encíclica e envia a todos uma mensagem clara e repleta de esperança: A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum. Ao mesmo tempo o papa se sente profundamente impressionado com a “fraqueza das reações” diante dos dramas de tantas pessoas e populações.

Na carta fica bem claro que na época moderna o homem tornou-se o centro de tudo, “excesso de antropocentrismo”. O ser humano não reconhece mais sua correta posição em relação ao mundo e assume uma posição auto referencial, centrada exclusivamente em si mesmo e no próprio poder. Deriva então uma lógica do “descartável”. É a lógica que leva a explorar as crianças, a abandonar os idosos, a reduzir os outros à escravidão, a superestimar a capacidade do mercado de se autorregular, a praticar o tráfico de seres humanos, o comércio de peles de animais em risco de extinção e de “diamantes ensanguentados”. É a mesma lógica de muitas máfias, dos traficantes de órgãos, do tráfico de drogas e do descarte dos nascituros porque não correspondem aos planos dos pais.

O coração da proposta da Encíclica é a ecologia integral como novo paradigma de justiça; uma ecologia “que integre o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a realidade que o circunda”. De fato, isto impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida.

A educação e a formação continuam sendo desafios centrais: toda mudança tem necessidade de motivações e deum caminho educativo. O início é apostar “em uma mudança nos estilos de vida que também abre à possibilidade de exercer uma pressão salutar sobre quantos detêm o poder político, econômico e social”. Uma ecologia integral é feita também de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo. Tudo isto será mais fácil a partir de um olhar contemplativo que vem da fé: O crente contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres.

 

Dom Anuar Battisti