14 de Junho de 2026

"Olhar, escutar, sentir compaixão"

A humanidade, sedenta de paz, de segurança, de libertação, confia em Deus o destino saudável da vida. No capítulo 19 do livro do Êxodo, encontramos o povo de Deus à beira do monte Sinai, num momento de grande expectativa. Após anos de escravidão no Egito, eles se preparam para receber a Aliança. O monte, envolto em nuvem, trovão e fogo, é o sinal da presença divina. Deus, com Sua voz poderosa, chama o povo para um pacto. Eles são convocados a ser um povo santo, um reino de sacerdotes. É a libertação que não se resume à saída do cativeiro, mas à constituição de uma nova identidade. O povo de Deus passa a ser um povo escolhido, chamado a viver em comunhão com o Senhor. Deus caminha com o povo, e o povo é incentivado a seguir a voz de Deus, seguindo as orientações de Moisés e, depois, dos profetas e profetisas. 

Essa libertação é chamada à fidelidade de Deus, se desdobra na carta aos Romanos, quando São Paulo proclama que somos agora, em Cristo, o povo fiel de Deus. Por meio de Sua morte e ressurreição, somos reconciliados com o Pai. Paulo lembra que, antes, éramos inimigos, afastados, mas agora, pela fé, somos membros de uma só família. A reconciliação, para Paulo, é uma nova criação. O pecado separava, mas a graça une. Somos, assim, convocados a viver como povo reconciliado, que não vive mais para si, mas para o Senhor e para o bem comum. Somos uma nova família, constituída na unidade pela fé e esperança em Jesus Cristo Ressuscitado, que está no meio de nós. 

Esse amor, essa compaixão, ressoa no Evangelho de São Mateus. Jesus, ao ver as multidões, teve compaixão delas. Elas são como ovelhas sem pastor. Ele olha para o povo com ternura e chama Seus discípulos. O Reino de Deus, para Mateus, manifesta-se na compaixão, na proximidade, no chamado à missão. Jesus nos faz membros do Seu povo para que, com Ele, sejamos instrumentos de cura, de libertação e de esperança. 

A libertação do povo de Deus, que começa no Sinai, perpetua-se na reconciliação em Cristo e concretiza-se na compaixão que Jesus tem pelo Seu povo. Somos chamados, portanto, a viver essa identidade: libertos, reconciliados e compassivos, para que, em comunhão com o Senhor, sejamos luz no mundo, testemunhas do amor e da graça de Deus. 

A Palavra de Deus nos alerta que é preciso olhar para a realidade do povo. Somos um povo a ser livres dos sofrimentos, das tramas da maldade, das mentiras? Ao nos aproximarmos do povo de Deus, escutamos a sua voz, os seus sofrimentos e as suas angústias. O afastamento de Deus provoca ilusão, angústia, dor, desolação, solidão. É preciso escutar as dores e as alegrias do povo de Deus. Como Jesus sentiu compaixão com tantas injustiças e ilusões, é preciso curar as feridas. Jesus chama os discípulos e os prepara para serem continuadores de Sua missão para curar os sofrimentos e propor uma vida digna, justa, experimentando os sinais do Reino de Deus, que já devem ser percebidos neste mundo. 

As pastorais, os serviços de caridade, a escuta do povo de Deus em todos os seus âmbitos nos comprometem com a verdade e sensibilidade do Evangelho, que nos chama para a missão. Os discípulos são escolhidos para serem testemunhas e assumir uma vida de especial dedicação ao anúncio do Evangelho. Em Cristo, somos um novo povo de Deus, gerado pela graça do Batismo, como irmãos e irmãs a caminho do Reino definitivo. 


Artigo semanal do Arcebispo de Maringá, Dom Frei Severino Clasen, OFM 

Publicado no Jornal O Maringá, 14.06.2026