Despedida das irmãs Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo da Arquidiocese de Maringá

30 de Junho de 2019

"Despedida das irmãs Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo da Arquidiocese de Maringá"

Sábado, 29 de junho, padre Israel Zago, pároco da paróquia Santa Isabel de Portugal, presidiu a Santa Missa de ação de graças pela presença das irmãs Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo na Arquidiocese de Maringá.

As irmãs chegaram em Maringá no final da década de 1960. Nas últimas décadas elas ficaram à frente do Núcleo Social Papa João XXIII, criado em 1972.

Em seu discurso, irmã Maria Ivani relatou que a decisão de deixar Maringá se deu pela falta de novas vocações. “Temos poucas entradas no noviciado. No ano passado a nossa província teve 14 óbitos. Deixar Maringá não foi uma escolha; é porque Maringá já tem quem faz. A obra social vai continuar com a comunidade”, explicou.    

Neste vídeo, ex-moradores do Núcleo Social Papa João XXIII, testemunham o trabalho realizado pelas irmãs vicentinas. Veja aqui



Após 47 anos, Irmãs Vicentinas deixam Núcleo Papa João XXII

A caridade que gera uma comunidade de fé, partilha e amor

Viver em comunidade significa ‘estado comum’, comunhão, identidade; conjunto de pessoas que habitam o mesmo lugar, partilham a mesma história, os mesmos interesses, pertencem a esse lugar. E esse lugar não é fruto de imaginação ou algo inatingível, ele existe há 47 anos e está presente em Maringá. É o Núcleo Papa João XXIII, localizado na zona norte de Maringá, próximo ao Hospital Universitário (HU), entre a Vila Vardelina e o Jardim São Jorge. Está instalado em uma área de 27.720 m², divididos em oito quadras. Essa área foi doada pela Prefeitura Municipal de Maringá em 1971.

O Núcleo Social Papa João XXIII nasceu a partir de uma experiência forte de solidariedade da Irmã Vicentina Salomé Detz, na época coordenadora do Albergue Santa Luiza de Marillac de Maringá, e de Dom Jaime Luiz Coelho, 1º Arcebispo de Maringá (In memoriam), que tiveram a capacidade de perceber os efeitos do grande êxodo rural no final da década de 1960, provocado pela decadência da cafeicultura na região. Eles não mediram esforços para dialogar com a comunidade e com as autoridades no sentido de, juntos, encontrarem soluções para o problema da falta de emprego, renda e moradia das pessoas que migravam do campo para a cidade.

Vendo nos irmãos a pessoa de Cristo, a necessidade de moradia e dignidade para construírem suas vidas, em 09 de dezembro de 1972, o Núcleo foi fundando, tendo à frente as Irmãs Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo (Vicentinas) e uma diretoria formada por voluntários, liderados por Dom Jaime.

O objetivo do Núcleo é abrigar, nas casas, famílias carentes e com filhos pequenos, que lá passam a residir gratuitamente por até cinco anos, período em que terão a oportunidade de restaurar o vínculo familiar, e, através do trabalho e da educação, desenvolver-se e serem capazes de exercer plenamente a cidadania. Neste período de cinco anos, os moradores vão se preparando para adquirir a casa própria.

As primeiras 10 casas do Núcleo foram construídas com o desmanche da Catedral de madeira e outras 65 casas a partir da demolição de casas rurais e escolas antigas que doavam o material. Com o passar dos anos as 75 casas, por meio de programas de doação e voluntariado, foram substituídas por alvenaria. Desde o início, o Programa de Moradia já abrigou mais de 900 famílias.

A garantia dos direitos humanos e da cidadania

Segundo a Irmã Romilda Paludo, nestes 47 anos da presença das Irmãs Filhas da Caridade na entidade, a história continua sendo escrita através da doação, que oferece ao irmão condições de resgate dos direitos humanos e cidadania; o que segue as convicções religiosas e vicentinas de São Vicente de Paulo ajudando a abrir novas perspectivas para essas famílias, fundamentadas nos valões evangélicos.

Hoje o trabalho proporciona moradia, em média para 300 pessoas, e oferece formação espiritual através da Catequese e celebração da Santa Missa; humana e afetiva através de atendimentos psicológicos, assistentes sociais e programas voltados às famílias (Centro de Atenção à Família); formação profissional por meio de oficinas.

As crianças também recebem atenção especial com o “Espaço Criança”, onde são desenvolvidas atividades esportivas, lúdicas e de iniciação à informática. As atividades são monitoradas por estudantes universitários. Há ainda o programa “Núcleo Ecológico”, onde são produzidas mudas de plantas ornamentais e horta para consumo dos moradores. Lembrando que as famílias atendidas pelo Núcleo não necessariamente precisam ser católicas, as irmãs pedem que independente de religião, os pais sejam fiéis e levam seus filhos para a igreja – porque a prática da fé faz a diferença.

Os desafios pastorais

Irmã Romilda Paludo explica que o grande desafio pastoral hoje para a Congregação é o vocacional, há escassez nas vocações jovens e uma demanda grande de trabalhos. Já o desafio para a entidade é conseguir atender o grande número de famílias que aguardam na fila por uma moradia e cumprir o trabalho proposto com sabedoria e eficácia. Para isto, segundo a Irmã, o Núcleo conta com o auxílio de uma equipe de profissionais multidisciplinares e todo o trabalho é co-participativo: “Procuramos resolver as questões em conjunto sempre com as Irmãs, a equipe de profissionais e os moradores do Núcleo”.

A religiosa também destaca que a questão habitacional ainda é um problema grave na sociedade, e mesmo os Programas voltados à moradia ainda não conseguem dar conta de toda a demanda atual.

Após 47 anos, Irmãs Vicentinas deixam Núcleo Papa João XXII

Assim como as empresas, as Congregações Religiosas passam por períodos de avaliação de suas atividades e redução de suas filiais. E devido à escassez de vocações e o envelhecimento das irmãs que já servem há muito tempo na Congregação Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, tem ocorrido o fechamento e encerramento das atividades da Congregação em algumas localidades. E no dia 30 de junho, as irmãs Romilda Paludo, Terezinha Alves dos Santos e Valdeni Bitencourt do Núcleo Papa João XXII deixaram a cidade de Maringá.

As três irmãs estavam trabalhando no Núcleo por um período mais curto, contudo traziam consigo toda a história construída ao longo destes 47 anos em que a Congregação, junto à equipe e colaboradores voluntários, transformaram o Núcleo em uma comunidade de fé, partilha e amor – devolvendo a dignidade a tantas famílias que se encontravam a beira do caminho, feridas, machucadas e encontraram na entidade um caminhão de ‘ressurreição’, de devolução da dignidade e da nobreza humana. “Vivemos como uma grande família: partilhamos alimentos, solidariedade, conversas, orações, pessoalmente e até virtualmente

Irmã Romilda salienta que o trabalho de evangelização na região do Núcleo foi essencial com as irmãs, pois também havia carência de padres e as irmãs tinham licença para ministrar os sacramentos como matrimônio, batismo: “Na região onde está situado o Núcleo a Igreja de Maringá teve início com as Irmãs e de lá para cá os trabalhos de evangelização e o social só foram possíveis graças ao voluntariado, a comunidade de Maringá, a população que sempre apoiaram a obra”.

Para a Ir. Terezinha todo o trabalho de amor que a irmã Salomé começou há mais de 60 anos em Maringá vai permanecer mesmo sem a presença da Congregação e isto é possível porque as irmãs não detiveram os conhecimentos, aprendizados e partilhas somente para si, mas compartilharam com a equipe de profissionais e com a comunidade. “Foram formadas pessoas que tem a capacidade de continuar o trabalho. A semente que a irmã Salomé plantou seguirá dando bons frutos”, afirma a religiosa.

Ao deixar Maringá o sentimento das irmãs é de realização, pois oferecer um ‘teto’ para alguém é uma causa nobre! “Através deste trabalho mantivemos no coração das pessoas a chama viva da fé e da esperança”.

Para encerrar Irmã Romilda descreve emocionada uma cena: “A pessoa chegou, entrou na casa e beijou suas paredes. O sentimento de ter um lugar seu, seja o quarto, a cozinha, o banheiro. Isso mostra a importância do trabalho, pois a gente não imagina em quais dimensões o ser humano é tocado quando tem uma casa – isto é viver o Evangelho”.

“Muito Obrigada ao povo de Maringá”

atendimentos:

As famílias são inseridas no Programa por meio de uma inscrição e como parte da inserção são realizadas avalições com profissionais de assistência social, psicólogos entre outros. Hoje há mais de 190 famílias na fila de espera por uma das casas do Núcleo.


Fabiana Ferreira/jornalista

Publicado na Revista Maringá Missão/edição julho 2019

Arquidiocese de Maringá