Artigo: O que produzes?

23 de Julho de 2020

Artigo: O que produzes?

Entorpecidos pela realidade de morte - que se alastra no inconsciente coletivo como algo normal ou natural – somos destituídos de nossas capacidades de análise, julgamento e discernimento dos fatos e relações cotidianas. Ou tudo está muito bem ou não há mais esperança. Atitudes extremas que nos colocam, ambas, em uma indiferente letargia diante da atual realidade de diferentes crises que enfrentamos.

A competência de análise e discernimento é o que nos garante os passos dados no caminho a ser percorrido. Se perdemos a capacidade de discernir sobre qual caminho seguir ou qual o próximo passo a ser projetado à frente, é certo que nos tronaremos inertes, estáticos diante de qualquer realidade, por mais que esta exija movimento, ação, transformação.

Concordo com que diga que a realidade está tão complexa que se torna difícil discernir entre o certo e o errado, o justo e o injusto, a verdade e a mentira, o bom e o mal. Principalmente porque estamos diante, cada dia mais, de fatos e situações “maquiadas” e facilmente nos levamos pela aparência, onde quem é injusto se apresenta como o justiceiro, quem mente como detentor da única e pura verdade, quem comete os erros mais atrozes como o juiz entre o certo e o errado.

É necessário, portanto, encontrarmos ferramentas que nos auxiliem nesse processo de discernir e caminhar. Para nós, cristãos, as balizas deste processo consistem nos valores do Reino de Deus. Penso que o texto bíblico de Mt 13,24-33 pode contribuir nesta análise.

O referido texto apresenta três pequenas parábolas à qual o Reino de Deus é comparado: a um campo onde crescem juntos trigo e joio, a uma semente de mostarda e, por fim, a uma porção de fermento.

É importante notar que nenhuma das comparações possuem valor significativo em sua origem, mas em seu fim. Só é possível avaliar a qualidade da seara no momento da colheita, quando os frutos estão expostos; o mesmo para a semente de mostarda, sua valia não está no tamanho do grão, mas sim no arbusto que produzirá; tal como o fermento, que corresponde a apenas 1/3 da massa, mas sua qualidade está na levedação que realizará.

Assim, é possível discernir entre o que é e o que não é o Reino de Deus apenas por meio dos “frutos”, ou seja, por meio dos elementos resultantes das ações, se são elementos de vida em plenitude ou se correspondem a elementos de morte.

Discernir, portanto, supõe a capacidade de antever os “frutos” que serão produzidos. Diante de discursos, fatos e ações é preciso se perguntar: Isso produzirá que tipo de “frutos”? Que tipo de consequências trará para nossa realidade? E, deste modo, optar sempre pelo princípio gerador de vida em plenitude para todas as criaturas, humanas e não humanas. As aparências podem nos confundir, mas os frutos são inconfundíveis.

Perante tantos elementos de morte – social, ambiental, cultural – devemos ter a audácia de seguir com passos firmes pelos caminhos de promoção, cuidado e cultivo da vida, e negar  todo e qualquer fato, discurso e atitude que se apresentam contrários ao Reino de Justiça, Fraternidade e Vida.


Oração:

Senhor diante de uma realidade tão desafiadora como a que vivenciamos, dai-nos a capacidade de ver, ouvir e discernir os caminhos que devemos trilhar. Fortaleça-nos na fé e na esperança, e nos encoraje a construirmos uma sociedade pautada nos valores de seu Reino, para que seja promotora de justiça e vida em plenitude.



Érica Daiane Mauri

Mestre em Teologia Bíblica - PUCPR

Vice-diretora da Escola de Teologia para Cristãos Leigos da Arquidiocese de Maringá.