Meu filho mente - Maringá Missão entrevista a psicóloga Denise Liliane Nochi


Data da Postagem: 14 de Novembro de 2016

Meu filho mente

O comportamento mentiroso é sempre visto com muita preocupação. Mentira consiste em não dizer a verdade em vista de enganar ou ludibriar a outra pessoa. Faz também parte o universo mentiroso dissimular uma situação, distorcer uma realidade, aumentar ou diminuir, dizer que vai fazer algo e não faz entre outros. Até certa idade, a criança precisa e cria fantasias que contribuem para o próprio desenvolvimento, à medida que essa criança vai crescendo o espaço é ocupado por coisas reais.

Na adolescência esse comportamento começa a comprometer o caráter do indivíduo, pois é o momento que vai se descobrindo a independência de forma gradual. Contudo, a confiança em contar sempre a verdade e não meias-verdades é necessária na família. Ocultar fatos, ou considerar que pequenas transgressões não precisam ser contadas pode desencadear uma conduta do ‘tanto faz’ falar a verdade ou não.

Alguns adolescentes podem mentir por medo de serem castigados,  isentarem-se de culpas, chamarem a atenção, ou ainda por verem os pais mentir, especialmente quando o telefone toca ao pedir para dizer que não estão. Os pais são espelhos para os filhos, e quando agem de forma mentirosa reforçam esse tipo de comportamento fazendo o adolescente ou criança achar a conduta natural. Conversamos com a psicóloga Denise Liliane Nochi e vamos entender um pouco mais como lidar com essa situação.



Revista Maringá Missão – Precisamos distinguir mentira de fantasia.

Denise: Mentira - Através dela consegue o que não tem ou não possui. É uma maneira de esconder os erros e demonstrar sua autocapacidade de fazer tudo o que pedem e o que dizem fazer, orgulho, receio das consequências negativas, baixa de estima, ganhos e regalias, opressão e razões patológicas. Fantasia - É um mecanismo de defesa que proporciona uma satisfação ilusória para os desejos que não se pode realizar. É uma síntese integrada de ideias, sentimentos, interpretações e memória, predominando limites instintivos e afetivos.  A partir dos 7 anos a criança sabe diferenciar fantasia de mentira, com essa idade ela não fica imaginando histórias, coisas que aconteceram ou fizeram, ela conseguirá diferenciar com mais clareza o certo do errado e terá o senso ético mais bem definido. A partir dessa idade, qualquer mentira será, na maioria das vezes, consciente.




RMM – Percebo que meu filho está mentido quando?

Denise: Geralmente quando os filhos mentem eles mudam o maneira de: comportar, falar, piscar, mudam tom de voz, desviam o olhar, ombros rígidos, tosse, muda a expressão facial. Alguns ficam mais atenciosos, fazem algo para agradar, outros ficam ansiosos, nervosos e acabam demonstrando que fizeram algo errado, é quando os pais percebem que estão mentindo.



RMM – Por que se utiliza a mentira, especialmente com os pais e amigos?

Denise: Através da mentira a criança, o adolescente ou o adulto escondem o que são na realidade. Demonstram ser alguém que não são, que possuem algo que não têm, fazem coisas que não conseguem realizar. Usam um pseudo- poder onde se acham mais inteligentes, espertos, que podem fazer o que quiser e ninguém descobrirá. A maioria mente mais para os pais e amigos, devido a estes serem mais próximos, e por terem vergonha ou orgulho de admitirem que erraram, perdendo o  poder para aqueles que mais desejam demonstrar que sabem e conseguem tudo.


RMM – A mentira é atrativa? Por quê?

Denise: A mentira atrai porque, aparentemente, evita que a pessoa assuma as consequências de seus erros. Dessa forma, após cada mentira, fica difícil parar. Através dela, pode-se conseguir o que não se tem. É uma maneira de esconder os erros e demonstrar autocapacidade de fazer tudo o que pedem e o que dizem fazer.



RMM – A mentira sempre traz consequências negativas, mas o abuso pode trazer resultados destruidores – Qual é o papel dos pais diante de situações mais graves de mentira?

Denise: A mentira vai destruindo aos poucos o mentiroso e as pessoas que são enganadas por suas mentiras. Os pais devem conversar e orientar os filhos sobre a importância da verdade e os males da mentira, pois ela destrói vidas, famílias, amizades, instituições, governos. Causando erros irreparáveis. Quando um filho comete um grande erro os pais devem orientar para que não cometa outra vez, mostrando as consequências negativas que causou e perdoar.


RMM – Castigar, maximizar o erro, ou chamá-lo de mentiroso trazem bons resultados?

Denise: Os pais precisam conversar com os filhos sobre os pontos negativos da mentira, suas consequências, dar exemplo em casa e demonstrar como ela destrói famílias e amizades.O castigo não é a solução, pois quando acabar a criança ou adolescente volta a mentir visto que não aprendeu o verdadeiro significado da verdade.Quando um filho comete algo errado e conta para seus pais é importante elogiá-lo e demonstrar que ficou feliz com seu novo comportamento.Nunca rotular como “mentiroso”, senão acabará se tornando um ou mentindo, pois já dizem que é um mentiroso.Valorize quando falar a verdade e ressaltem suas qualidades.


RMM – No dia a dia, como os pais podem orientar os filhos a optar pela verdade como um valor?

Denise: A mentira é aprendida na infância, no dia a dia, com exemplos, palavras, olhares, que os filhos aprendem a falar a verdade. Se os pais mentem eles iram mentir.  Se uma criança ganha um presente e não gostou e os pais a fazem dizer que gostou é mentira. E assim vai aprendendo a mentir. Pais que usam sempre a verdade, que assumem responsabilidades por aquilo que fazem ,dizem, criam filhos responsáveis e éticos. “Só se ensina aquilo que se é” (Wanderson).

RMM – Quais ospassos para transformar o adolescente numa pessoa digna, confiante, com autoestima elevada, não precisando se utilizar da mentira para fugir da realidade ou se sentir melhor?

Denise: Verdade, sinceridade e honestidade, falar sempre a verdade por mais difícil que pareça, confiar mais, valorizar tudo o que faz, preservar a família, os bons amigos, procurar não perder a credibilidade. Para se tornar um cidadão digno de respeito é preciso aprender a ser, e isso se aprende no colo, com gestos, carinhos, palavras, que definem a qualidade das relações humanas e perpetuação de nossa espécie. “Lembre-se que a mentira não aumenta o nariz, mas diminui a confiança”



Entrevista: Fabiana Ferreira/jornalista


Publicado na Revista Maringá Missão de novembro de 2016