Viver o luto e as perdas


Data da Postagem: 25 de Fevereiro de 2016

Quase que diariamente somos surpreendidos por notícias de perdas de amigos, familiares, gente de perto e de longe. Surpresas que nos deixam às vezes sem palavras. Sabemos que as perdas e luto fazem parte da condição humana. Tudo na vida vai lentamente se desgastando, o corpo perde suas forças, os anos vão deixando marcas irrecuperáveis e sentimentos de voltar ao passado ficam só na memória.

Na lei dos seres vivos está presente o fim, ou seja a morte. Existem também no caminho da vida, eventos que rompem esse ciclo como é a traição de um amigo, a perda do emprego, um iniciativa mal sucedida, a perda de uma pessoa amada pelo divórcio ou pela morte repentina. Nasce aí a tragédia que faz parte da vida.

A pergunta que surge é: como viver esses momentos de luto e de perda? Não existe receita pronta. Só quem passou por esses momentos sabe, e cada um vai fazer a sua experiência sem soluções mágicas.

Lendo um texto de Leonardo Boff, sobre este tema, ele faz referência aos estudos de um famoso casal alemão Hubler-Ross, o qual propõe vários passos de sua vivência e a superação. “O primeiro é a recusa: face ao fato paralisante, a pessoa, naturalmente, exclama: “não pode ser”; “ é mentira”. Irrompe o choro desconsolado que palavra nenhuma pode sustar. O segundo passo é a raiva que se expressa: “por que exatamente comigo? Não é justo o que ocorreu”. É o momento em que a pessoa percebe os limites incontroláveis da vida e reluta em reconhecê-los. Não raro, ela se culpa pela perda, por não ter feito o que devia ou deixado de fazer.

O terceiro passo se caracteriza pela depressão e pelo vazio existencial. Fechamo-nos em nosso próprio casulo e nos apiedamos de nós mesmos. Resistimos a nos refazer. Aqui todo abraço caloroso e toda palavra de consolação, mesmo soando convencional, ganha um sentido insuspeitado.

É o anseio da alma de ouvir que há sentido e que as estrelas-guias apenas se obscureceram e não desapareceram. O quarto é o autofortalecimento mediante uma espécie de negociação com a dor da perda: “não posso sucumbir nem afundar totalmente; preciso aguentar esta dilaceração, garantir meu trabalho e cuidar de minha família”. Um ponto de luz se anuncia no meio da noite escura. O quinto se apresenta como uma aceitação resignada e serena do fato incontornável. Acabamos por incorporar na trajetória de nossa existência essa ferida que deixa cicatrizes. Ninguém sai do luto como entrou. A pessoa amadurece forçosamente e se dá conta de que toda perda não precisa ser total; ela traz sempre algum ganho existencial.

Na minha experiência pessoal, de lutos e de perdas, a consolação encontrei nos amigos que se fizeram presentes não só no momento, e não pelos conselhos e palavras bonitas. O meu encontro pessoal na oração foi o bálsamo que regou minha dor, e o desejo de não perder a mãe, o pai, amigos e parentes. O luto significa um caminho doloroso, não fazer de conta, ou conformar-se dizendo simplesmente: “é o jogo da vida”. Por isso superar não significa esquecer ou fingir que nada aconteceu. É preciso assumir, não sozinho, e neste caminho a vivência da fé é fundamental. Por isso nunca se sinta só. De todos os amigos tem um que veio dar a vida na cruz e nos ajudar a carregar a nossa cruz até o fim: Jesus. Juntos com Ele, temos a certeza que toda perda, que todo luto, nos ajuda a chegar à eternidade.

 

Dom Anuar Battisti é Arcebispo Metropolitano de Maringá-PR