Existimos em vista de uma missão. Nascemos, crescemos, nos mobilizamos, fomentamos sonhos e construímos o mundo conforme nossas aspirações, ações, sentimentos e desejos. Neste tempo de calor, de encontros, de festas e de esperanças, celebramos o Batismo do Senhor, concluindo o tempo do Natal. Quando batizamos uma criança ou um adulto, o ambiente familiar desperta expectativa, esperança, mistura de liberdade, acolhida, perspectiva de vida. A partir do rito celebrado, a vida toma o seu ritmo e segue a missão. Pais e padrinhos retomam as atividades cotidianas. A pessoa adulta batizada vive uma nova sensação no âmbito pessoal, comunitário, espiritual e profissional.
Com Jesus também foi algo semelhante. Ele, por iniciativa própria, vai ao rio Jordão para ser batizado por João Batista. Temos algo novo e surpreendente nesse acontecimento. Primeiramente, Jesus segue o rito normal: procura, quer ser batizado. Mas, no miolo do batismo, o céu se abriu, a voz misteriosa rompe o silêncio, anunciando quem é o batizado. A missão é anunciada não por vozes humanas, mas o próprio Deus revela que “este é especial”, tem uma missão sublime. A voz humana se cala, a expectativa de futuro se isola, a festa de batizado é substituída por um retiro no deserto, onde o recém-batizado é tentado pelo demônio.
O batizado, anunciado pela voz vinda das nuvens, revela ao mundo: “Este é o meu Filho predileto”. A missão é específica: anunciar a justiça, pregar a esperança, sustentar na pregação que Deus Pai tem o Reino de amor e de justiça para todas as pessoas que procuram fazer a Sua vontade. O profeta Isaías já profetizara: “Eis o meu servo - eu o recebo; eis o meu eleito - nele se compraz minh´alma; pus meu espírito sobre ele, ele promoverá o julgamento das nações” (Is 42,1). A lógica de Deus acompanha a história da humanidade. Deus não se contradiz: é fiel, constante, fidedigno, justo, cheio de amor.
A voz que rompe as nuvens no batismo do Senhor estronda igualmente na Sua morte de cruz. A missão que Jesus recebe por parte do Pai está em vista da Sua paixão, morte e ressurreição. A revelação do amor incondicional o acompanha em toda a Sua trajetória de vida pública, na Galileia, em sua redondeza, e se concretiza em Jerusalém.
Somos introduzidos no mesmo batismo do Senhor. Portanto, somos irmanados em Jesus Cristo para fazermos a vontade do Pai. Somos enviados a proclamar no mundo que o Reino de Deus está próximo e devemos nos converter, seguir os mandamentos, amar a Deus e ao próximo. Isto o Senhor nos manda fazer.
A partir do batismo do Senhor, a vida toma um rumo diferenciado: deve superar as divisões, o proselitismo e fomentar a unidade, o acolhimento, a aceitação do diferente que busca o Senhor. “De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção entre as pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença” (At 10,34-35).
Concluímos o tempo do Natal e seguimos, a exemplo do Senhor após o Seu batismo, iniciar a missão de batizados: criar um mundo mais justo e fraterno. Eis a missão: erguer a cabeça, deixar-se conduzir pelo Senhor que nos chama para fomentar a harmonia, a concórdia e a justiça na família, na comunidade de fé e na sociedade. Eis a voz que rompe o silêncio da acomodação e desperta para uma vida ativa, de fé e de esperança.
Que saibamos escolher o caminho correto. Que o Senhor nos abençoe e nos conduza com amor e alegria neste novo ano.
Artigo semanal do Arcebispo de Maringá, Dom Frei Severino Clasen, OFM
Publicado no Jornal O Maringá, 11.01.2026




