22 de Fevereiro de 2026

"O pecado da desobediência"

Nos quarenta dias da Quaresma, Deus nos chama para avaliar como vivemos e convivemos neste mundo. As relações familiares e sociais, responsabilidades para com as pessoas, amar a Deus e ao próximo, são as temáticas que pontuarão a nossa boa conduta. É tempo de conversão, de mudança de vida. Reatar as relações machucadas pelo pecado. A Igreja é mantenedora da ordem estabelecida por Deus para dar sentido à vida, obedecer aos mandamentos, seguir os passos de Jesus por meio do Evangelho. 

Teremos quarenta dias de preparação para celebrar a Páscoa do Senhor. O mistério da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus se celebra com o coração puro, porque dele brota a certeza da nossa salvação. 

Quaresma é tempo de intensificar a vida de oração sincera e coerente a Deus; a esmola, coração generoso que se compadece para com os mais necessitados; o jejum, desprendimento de todos os excessos. A conversão tem reflexos na vida junto ao próximo. Jesus manda amar o próximo, cuidar do próximo, se interessar pela dor do próximo.

Neste primeiro Domingo da Quaresma, no Evangelho (Mt 4,1-11), Jesus vai ao deserto orar, mas é tentado pelo diabo. Jesus vence todas as tentações no deserto. Na primeira leitura deste domingo (Gn 2.7-9; 3,1-7), temos a narrativa da desobediência de Adão e Eva. A serpente, agente tentador, inebriou o primeiro casal que vivia livre e feliz no Éden. A estulta serpente provoca o primeiro casal humano para uma suposta vida além da promessa feita a Adão e Eva, viver sem o reconhecimento de que são criaturas limitadas. 

Quando o excesso entra na mente do ser humano, as coisas se complicam e se distanciam da ordem natural. O ser humano busca o que não lhe compete, se perde, estraga a sua originalidade, desobedece, interrompe a ordem da convivência com a natureza criada por Deus. 

Jesus Cristo veio restaurar a humanidade perdida pela desobediência a Deus. Adão e Eva foram tentados por uma vez e deixaram o pecado se instalar na vida humana. Jesus, para eliminar o pecado original, a desobediência a Deus, após o Batismo, foi ao deserto orar a sós com Deus, foi tentado por três vezes e superou todas elas. Ao término de Sua missão neste mundo, no caminho ao calvário, Jesus sofreu a tentação de abandonar o caminho da cruz, mas foi fiel, obediente a Deus até o fim. Morreu, mas ressuscitou. Eis a razão da nossa fé, eis o caminho a ser percorrido na Quaresma para rever nosso caminhar e como superar as tentações, pois: “Como a falta de um só acarretou condenação para todos os homens, assim o ato de justiça de um só trouxe, para todos os homens, a justificação que dá a vida” (Rm 5,12-19). 

Portanto, temos quarenta dias para profundar na reflexão sobre os pecados que machucam a nossa vida pessoal, familiar e comunitária para podermos celebrar o dom da nossa salvação na festa da Páscoa. Mas é preciso arrumar a casa, arrumar o coração, sensibilizar-se com os que não têm casa, com os que não têm moradia, com os abandonados. 

A Igreja contribui com a Campanha da Fraternidade com o tema “Fraternidade e Moradia” e com o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Trata-se de uma proposta profundamente evangélica, pastoralmente urgente e teologicamente consistente, que toca o coração da fé cristã e interpela diretamente a consciência e a prática dos discípulos de Jesus. A conversão se manifesta na compaixão pela precariedade de moradia de milhões de famílias, que justifica o processo da nossa conversão em obediência a Deus. 


Artigo semanal do Arcebispo de Maringá, Dom Frei Severino Clasen, OFM 

Publicado no Jornal O Maringá, 22.02.2026