Neste tempo quaresmal, somos conduzidos para o alto, onde é oferecido o esplendor da vida. A montanha simboliza a elevação da vida para um sentido mais profundo, almejando a plena felicidade.
A fé de Abraão nos estimula: “Vai para a terra que eu te vou mostrar” (Gn 12,1). Abraão mobilizou-se pela disposição interior, mais do que pelo espaço geográfico. A sensibilidade humana é movida pelo impulso interior. A moradia é o espaço físico onde repousamos, incansavelmente na sede do infinito, do Reino de Deus. É uma conquista diária que exige disposição, equilíbrio, fé e esperança.
A Campanha da Fraternidade deste ano nos leva a refletir sobre a moradia, espaço físico que nos acolhe e presta segurança, bem-estar. Mas também, uma atitude interior que nos deixa em casa, protegidos pelo grande e verdadeiro amor revelado por Jesus Cristo. A disposição interior e o espaço físico convivem lado a lado. Quando falta o espaço da segurança, a moradia digna, agredimos o estado interior, a dignidade da pessoa. A fé é o termômetro da nossa confiança em Deus, que nos chama para a casa segura do Pai.
Sendo pobre e desprotegido das regalias do mundo, Jesus anuncia que a casa do Pai é o Reino dos Céus. Jesus levou consigo três dos Seus discípulos para mostrar-lhes o Seu esplendor: “E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz. Nisto apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. Então Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias” (Mt 17,2-4). A Lei e a profecia caminham juntas.
A itinerância de Jesus é subir a Jerusalém, onde se realizará a Sua missão, de ser crucificado, morto e ressuscitar. A manifestação da Sua glória é um anúncio que os discípulos somente entenderiam após a Sua ressurreição, quando o Espírito Santo vier sobre eles no dia de Pentecostes. Por isso a recomendação: “não digam nada a ninguém o que vocês viram”. De fato, como não entenderam a razão dessa manifestação no alto da montanha, a vida continuou no aprendizado, no seguimento e reconheceram somente após a Sua ressurreição. A missão é clara: descer a montanha, conviver com os irmãos, dar dignidade de vida plena para todas as pessoas, anunciar o Reino da justiça, do amor, da paz.
A Campanha da Fraternidade nos provoca a olhar para as nossas atitudes e mensurar o quanto somos pessoas de fé que acreditamos nos desígnios de Deus. Ele nos chama para viver em profunda harmonia e paz entre nós humanos. Ninguém pode viver fora da esfera do cuidado, da segurança, da moradia digna, da conversão. Quaresma é tempo propício para ouvirmos a voz do Filho querido de Deus: “Eis o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha afeição; ouvi-o” (Mt 12,5). Como membros de comunidade cristã, seguidores de Jesus Cristo, somos alertados para não desanimar na busca da vida plena e justa. A fé nos fortalece na vida e acreditamos nas promessas de Jesus: “Esta graça foi revelada agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo. Ele não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho” (2Tm 1,10).
Que este tempo de avaliação quaresmal, nos fortaleça na vida, busquemos maior estabilidade interior para crescer em solidariedade, ajudar que todos tenham casa digna para morar. Pois Deus providenciará o Seu Reino de amor para todos que o buscam de coração puro.
Artigo semanal do Arcebispo de Maringá, Dom Frei Severino Clasen, OFM
Publicado no Jornal O Maringá, 1°.03.2026




