21 de Junho de 2026

"Cuidado com os disseminadores da mentira"

O profeta Jeremias viveu num tempo em que a confiança não era “preservada”: era atacada. Ele ouviu o sussurro coletivo que tenta esmagar por dentro — “Terror: denunciai-o, denunciai-o, denunciemo-lo” — e percebeu que até os laços próximos podiam virar armadilha: “Todos os amigos observavam minhas falhas” (Jr 20,10d). 

Diante desse clima de medo, o coração humano costuma procurar duas saídas fáceis: a vingança (“Talvez possamos prevalecer contra ele”) ou a rendição (“Talvez eu mereça cair”). Mas o texto de Jeremias revela algo mais profundo: o medo, quando espalhado, cria uma atmosfera de mentira social — um tipo de “fake news” espiritual, na qual as pessoas já não discutem a verdade, apenas repetem o terror. O profeta, portanto, torna-se símbolo de resistência: não porque ignora a pressão, mas porque se recusa a deixar que a voz da intriga substitua a voz de Deus. 

Essa resistência encontra eco no Salmo 68, que descreve Deus como Aquele que se levanta para dispersar os inimigos e conduzir o povo à salvação. O salmo não romantiza o conflito; ele o coloca sob a soberania do Senhor. Em linguagem espiritual: quando a noite grita “terror”, o salmo responde com uma promessa: a salvação não depende da fofoca, mas da fidelidade de Deus. 

Nesse ponto, Paulo ajuda a iluminar o problema do ser humano sob pressão moral e legal. Ele observa que a transgressão não é simplesmente “qualquer ato”: quando “não há lei”, o pecado não é imputado do mesmo modo. São Tomás de Aquino comenta a frase paulina: “onde a lei não foi dada, não se trata de uma “transgressão” no sentido pleno, imputável como violação formal”. Ao mesmo tempo, a realidade da morte continua reinando desde Adão até Moisés, reinou a morte mesmo sobre aqueles que não pecaram como Adão (cf. Rm 5,13-14). 

A conclusão de Paulo não é desesperadora: a graça é maior. Em outras palavras, o pecado de origem explica a gravidade do cenário humano, mas não iguala a graça incapaz à falta humana. A graça de Deus vence. 

É aqui que o Evangelho de Mateus entra no mesmo movimento: Jesus ensina a não temer aqueles que só conseguem matar o corpo, e a colocar a coragem onde a verdade nasce. Se Jeremias descreve o “terror ao redor”, Mateus propõe uma resposta que não é negar a perseguição, mas recusar a escravidão do medo e obedecer ao que é verdadeiro. A mentira, as “fake news” e a difamação funcionam exatamente porque exploram uma psicologia: fazem o bem parecer suspeito e o mal parecer inevitável. 

O que fazer, concretamente, com essa tríplice luz: (Jeremias, Salmo, Paulo)? Três atitudes práticas: 

- Levar o medo a Deus antes de levar a acusação aos outros. Jeremias não transforma a pressão em ruído; ele leva a angústia à presença do Senhor. 

- Recusar a lógica do “sem lei, tudo vale” e do “com lei, eu me torno juiz”. Paulo mostra que a imputação do pecado depende do contexto da lei, mas a morte e a fragilidade humana continuam; por isso, a resposta cristã não é indiferença moral nem tribunal vingativo, e sim arrependimento e confiança na graça. 

- Eliminar a mentira com caridade e verdade verificável. Se a difamação se espalha como boato — como “sussurros” que empurram para denunciar — o cristão deve agir com prudência: não amplificar, mas checar, corrigir com respeito e defender o que é justo, para que o “terror” não vire cultura. 

Concluindo: viver a verdade, da verdade, defender a cultura da verdade — eis a Boa Nova trazida e pregada por Jesus Cristo. 


Artigo semanal do Arcebispo de Maringá, Dom Frei Severino Clasen, OFM

Publicado no Jornal O Maringá, 21.06.2026