13 de Setembro de 2026

"A nobreza de saber perdoar"

A Palavra de Deus nos conduz ao coração da fé cristã: o perdão. Em um mundo marcado por conflitos, divisões e ressentimentos, o Senhor nos convida a percorrer um caminho exigente, mas profundamente libertador. Perdoar não é apenas um gesto de bondade humana; é uma experiência de comunhão com Deus, que nos reconciliou consigo por meio de Seu Filho Jesus Cristo. 

O livro do Eclesiástico (Eclo 27,33-28,9), diz que o rancor e a vingança envenenam o coração humano. Quem alimenta a ira torna-se prisioneiro dos próprios ressentimentos e fecha as portas para a ação transformadora da graça de Deus. A Palavra nos adverte que não é possível pedir perdão ao Senhor enquanto cultivamos a recusa em perdoar o irmão. A reconciliação com Deus passa necessariamente pela reconciliação com o próximo. 

A cultura do revide, da intolerância e da exclusão parece ganhar espaço nas relações familiares, sociais e até religiosas. Contudo, o Evangelho nos revela um caminho completamente diferente. O perdão não diminui quem o oferece; ao contrário, manifesta a grandeza de um coração configurado ao de Cristo. Perdoar é romper o círculo do mal, impedir que o ódio continue produzindo sofrimento e abrir espaço para que a paz floresça novamente. 

São Paulo recorda aos cristãos de Roma uma das mais belas expressões da identidade cristã: “Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor.” (Rm 14,7-9). A vida do discípulo não gira em torno de seus interesses, de seus sentimentos feridos ou de seus direitos pessoais. Nossa existência pertence a Deus. Essa pertença redefine nossos pensamentos, nossos sentimentos, nossas escolhas e nossas atitudes diante das ofensas. 

O Evangelho de São Mateus (Mt 18,21-35) aprofunda ainda mais esse ensinamento. Diante da pergunta de Pedro sobre quantas vezes deveria perdoar, Jesus responde: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.” Não se trata de estabelecer um novo número, mas de afirmar que o perdão não conhece limites quando nasce do coração de Deus. 

A parábola do servo que recebeu o perdão de uma dívida imensa, mas foi incapaz de perdoar uma pequena dívida de seu companheiro, revela uma profunda incoerência espiritual. Quantas vezes desejamos experimentar a misericórdia de Deus, mas resistimos em deixar que ela transforme nossas atitudes diante dos irmãos. Não podemos acolher o amor do Pai e permanecer fechados ao perdão. 

Perdoar não significa justificar a injustiça, esquecer o sofrimento ou renunciar à busca da verdade e da justiça. O perdão cristão é uma decisão iluminada pela fé, que rompe as correntes do ódio e impede que o mal continue dominando o coração humano. É um caminho de liberdade interior, de maturidade espiritual e de verdadeira paz. 

As nossas famílias necessitam urgentemente dessa cultura do perdão. Quantas relações são destruídas por palavras impensadas, orgulhos alimentados durante anos e incapacidade de dar o primeiro passo para a reconciliação. Também nossas comunidades eclesiais são chamadas a testemunhar que o Evangelho da misericórdia é capaz de reconstruir a fraternidade. 

Vivemos tempos marcados por fortes polarizações. Com frequência, encontramos pessoas que alimentam a raiva, o ódio e a divisão, transformando diferenças em inimizades permanentes. 

Nossa sociedade precisa de homens e mulheres capazes de dialogar, compreender, acolher e reconstruir pontes. O perdão é uma das expressões mais elevadas da justiça evangélica, porque restaura a dignidade das pessoas e abre novos horizontes para a convivência humana. A paz começa no coração reconciliado e se estende às famílias, às comunidades, às instituições e à sociedade inteira. 

Que Maria, Mãe da Misericórdia, nos ensine a cultivar um coração manso, humilde e reconciliado. 

Que o Senhor nos abençoe! 


Artigo semanal do Arcebispo de Maringá, Dom Frei Severino Clasen, OFM

Publicado no Jornal O Maringá, 13.09.2026